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Suspensão

tradições. A luz do abajur ilumina o livro aberto. A menina na cama, um casulo de cobertas. A anciã sussurra uma estória. Apoia a mão esquerda no peito da criança, segura o livro com a direita. Você se aproxima devagar, sente medo de ser visto. Também quer se enrolar na cama, ouvir a estória (a sua história). No quarto escuro, você reconhece um brilho. A mão da velha treme, a seringa deixa a carne da menina. O líquido azul parece vivo. De repente, as páginas estão brancas, a criança tem o rosto da velha, todo sussurro é uma palavra (você sabe sem precisar ouvir). De repente,

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Intersecção

ordem. Molduras, copos, perfume. Conversas em uma parede. O que se espera, o que se veste para o verão. Você precisa falar, mas é interrompido pelas telas, a carícia imaginada, o valor da arte. Quem se encontra de dia aprende na prática o preço da noite. Viver na Cidade custa caro. Mas o convite anuncia: em exposição,

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Eternidade

desespero”, grita o profeta. “Um sol estático ilumina a Cidade. O fim do mundo aproximou-se como uma estrela de fogo e se foi. Paraíso, inferno, purgatório, terra dos mortos, reencarnação. Todos se foram”. Termina de se banhar em gasolina. A multidão aguarda, imóvel. “O que nos sobra é o Limbo”. Desenha um círculo de gasolina em volta de si mesmo. “Branco”. Outro círculo. “Infinito”. Outro círculo. “Imutável”. Acende o isqueiro e olha diretamente para você. “Não há mais rupturas possíveis”. Some numa pira de fogo. A multidão assiste em silêncio, olhos de espelho, desespero”, grita o profeta. “Um sol estático ilumina a Cidade. O fim do mundo aproximou-se como

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Ausência

ficções. Os ventiladores sibilam o ar viciado. As mesas são compridas, a recordação de refeitórios extintos. Os funcionários entregam seus olhos a tesouras e fotos. Imagens da Cidade recortadas, reduzidas a fragmentos irreconhecíveis (mas você reconhece, você sempre reconhece). Algo se desenha nos pedaços de papel. É tênue, dura pouco. Presa às vigas do galpão, uma placa gasta informa: “Aqui construímos o mundo do futuro”. O encarregado recolhe cada resultado. O trabalho recomeça, as horas se perdem em

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Um quarto.

Eu peso trinta e seis quilos. No entanto, sou alto. Meço exatamente um metro e oitenta e dois centímetros. Minha garra fecha-se com força em volta do pescoço de mais uma puta. Ela chora baixinho, os mamilos permanecem endurecidos. Eu a deposito gentilmente em meu estômago. Mastigação. Gozo. A mão esquerda rapidamente procura o pacote de cocaína no chão. Ele é jogado com pressa em minha cavidade, e eu entro em êxtase. Prazer.

Incontáveis unhas já quebrei, sentado nesse trono de madeira, arranhando de prazer, arranhando de fome. Fome. Meu estômago ronca, está vazio. Sempre. O buraco arreganha os dentes mastigando o nada e pode-se ver a garganta secando, enrolando-se, espremendo-se. Levanto. Os joelhos estalam sob um peso negativo, o suco gástrico escorre. Meus olhos estão injetados. Agarro a Europa com minhas garras e a devoro. Sento-me nas rochas de um oceano vazio, exatamente onde antes era Dresden. Estico a mão para alcançar a África. Fome.

Meus velhos amigos tornaram-se incômodos pedaços de carne presos entre os dentes. Devoro os novos lentamente, saboreando o gosto do desconhecido. Perco o interesse rápido, mas termino a refeição por educação. Tédio.

Um sagaz observador, antenado nas velhas e novas tendências das lendas morais, poderia visualizar o final de minha história: eu acabo por devorar a mim mesmo, arrancando pedaço por pedaço. Sinto muito. A falta de três dedos de minha mão esquerda marcam a tentativa falha, o gosto podre ainda atormenta o fundo de minha língua. Eu continuo aqui. Arranhando. Comendo. Bebendo. Cheirando. Gozando. E querendo mais.

Mais.

 

Novo resgate de 2007. Uma nova macumba ao revés.

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Fé

uma prisão.  Não há cheiros, apesar da sujeira. Não há sons, apesar do ruído. Não há textura, apesar das farpas. Eles mantêm suas celas fechadas, segurando as grades com as mãos. O corredor assusta, o ferro deixa saudades. A Cidade chora sua partida. Você caminha para a porta. O ritual vacila. A coragem não é mais suficiente. Corra. Volte. Esfregue-se nas grades, banhe-se em sua própria ferrugem. Nada importa lá fora. O significado escapa e você fica para trás. No lugar, apenas

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Há…

Hoje encontrei uma cabeça de boneca de cera embaixo da minha cama. O ferimento no pescoço ainda estava aberto e expelia lentamente uma substância escura e grossa, característica do sistema circulatório das bonecas de cera.
Os olhos piscavam com languidez e as pupilas reviravam-se, focando o nada. 
Tive pena.
Coloquei a cabeça cuidadosamente no cesto de palha sobre o criado-mudo. Ela piscou rapidamente, talvez assustada com o toque de minha mão quente (tão nociva aos seres de cera!), talvez agradecida com minha preocupação. Mas nada foi dito.

Percebi então que a vida é vertical. Há um degrau marcado em cada rosto.
Um rapaz jovem, realista e interessado nas últimas tendências da filosofia poderia discordar, afirmando que a vida só poderia se apresentar de maneira horizontal, já que a evolução vertical da existência estaria inclusa em um papo metafísico cansativo, chato e extremamente inútil.
Eu concordaria!

No entanto, a cabeça ainda me olha, ansiando, implorando por um conserto, um novo corpo, uma nova vida.
O fluído viscoso ainda escorre, arrasta-se pelo meu criado mudo até o chão, onde se espalha pelas fissuras do carpete de madeira.
Aquele fluído é um degrau. Não se trata de evolução, de avanço. Trata-se de vontade.
Sim, a vida é vertical.

Eu sorrio, acaricio os minúsculos fios de cabelo artificiais e planejo minha aposentadoria.

 

Texto de 2007, resgatado de meu antigo blog.

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Conto a Rentrer

Lembro-me da época em que ganhei meu terceiro braço.
No começo pareceu-me artificial, anti-natural, grotesco até. Mas com o tempo fui me acostumando a esse útil membro extra, sempre disposto a auxiliar nas tarefas de meu dia-a-dia, que, como meus íntimos bem sabem, não são nem um pouco simples.

Eu o chamava e lá estava ele: pingando como um cão à espera de seu dono. Podia sentir as juntas enrijecidas pelo prazer antecipado de servir a seu mestre. A pele branca, ligeiramente azulada, brilhava de êxtase e contentamento em ser útil.
Fazia chuva, fazia sol, lá estava eu com meu companheiro inseparável em minha mochila. Mantinha o zíper aberto, orgulhoso como eu era, para dar-lhe a chance de acenar, sua mão endurecida numa posição tão amigável e calorosa.
Ah! Abençoado eu era! Quem poderia adivinhar que ganharia companheiro tão inseparável de forma tão inesperada?

Um aceno um pouco antes de atravessar a entrada da Bandeirantes. “Ah, mas que pouco educado! Venha cá e aperte minha mão!”, enquanto o caminhão fazia a curva à toda. E em meio segundo lá estava meu novo braço, ainda preso ao cumprimento, enquanto meu amigo passeava em um pára-brisa.

Escrito em 2007 e resgatado de meu antigo blog.

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Imolação

expectativas. O mar e a areia estão sufocados, o chão não existe mais. No centro da praia, uma plataforma de madeira se eleva. No topo, uma mulher amarrada. Pernas abertas e um selo sobre a face. Sua vagina está dilatada (você enxerga, mesmo à distância) e um líquido rosa-transparente vaza em pequenos jatos. Contagem regressiva. Dez. A mulher grita. Nove. Oito. Você tenta se afastar, mas não consegue. Sete. A mulher grita. Seis. Cinco. Quatro. Você tenta desviar o olhar, mas não consegue. Três. A mulher grita. Dois. Você grita com a mulher. Um. Os fogos de artifício abafam o choro da criança. O cordão umbilical se parte. Ela rola pela plataforma e some na multidão. A Cidade comemora. O futuro consumido em

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Sacrifício

cores. Cavalete tombado e tela rasgada. A tinta é teimosa, chama a retina em meio à destruição. Dê meia volta, você verá um corpo. Ele não respira. Não possui olhos, boca, orelhas, nariz. Pênis e ânus queimados. Sobre a face, a lâmina de um espelho. Sobre a mão, o início de uma lenda. “O imperador do Mar do Sul era chamado Shu, o imperador do Mar do Norte era chamado Hu, e o imperador da região central era chamado Hun-Tun”. Volte para a tela, perca-se na tela. Há demasiado vermelho sobre a tela. Ignore o corpo, que agora se levanta. O mais importante está na sua frente. Um ovo surge para desafiar a Cidade, germinando em

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Um gato de Schrödinger perdido no mundo cinza dos cães de Pavlov.
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