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Thiago Sá - Um gato de Schroedinger perdido no mundo cinza dos cães de Pavlov. Mentiroso com orgulho, anarquista ontológico, pirata e, de vez em quando, escritor.

Em 140 caracteres @pickacultname
Posts I Like

Sentimos o peso da cidade,
sentimos a pressão do ar,
o movimento das rodas.

Sentimos o calor das máquinas
(retiramos calor das máquinas!),
sentimos a velocidade dos dias,
o tempo que passa e some.

Sentimos a ausência dos vizinhos,
sentimos a força da vida,
o desespero dos vivos.

Cada encontro pede tudo,
e cada tudo um pouco mais.
Em cada tanto, tanto nada.

O que nos sobra -
só o que nos sobra -
são sonhos ao vento.

INVERNO SOLAR PODE SER REAL
DUBLIN – Cientistas irlandeses divulgam novas descobertas sobre o Sol que podem comprovar a hipótese alarmista de fim do mundo em dezembro de 2012.
De acordo com pesquisadores do Trinity College, Dublin, o Sol iniciou um processo de autocombustão sem reposição de energia. Estudos demonstram que há a possibilidade de um inverno solar a partir do fim do ano, resultando em temperaturas de até 127 graus negativos até março de 2012.
A pesquisa ainda depende de comprovação de outros institutos, mas as previsões não são animadoras.

INVERNO SOLAR PODE SER REAL

DUBLIN – Cientistas irlandeses divulgam novas descobertas sobre o Sol que podem comprovar a hipótese alarmista de fim do mundo em dezembro de 2012.

De acordo com pesquisadores do Trinity College, Dublin, o Sol iniciou um processo de autocombustão sem reposição de energia. Estudos demonstram que há a possibilidade de um inverno solar a partir do fim do ano, resultando em temperaturas de até 127 graus negativos até março de 2012.

A pesquisa ainda depende de comprovação de outros institutos, mas as previsões não são animadoras.

Homemagem a J.G. Ballard e Jorge Luis Borges 

Perdi o último trem da noite.
Desci correndo as escadas da estação e ele já acelerava e guinchava pelos trilhos de ferro. Senti medo.
As luzes frias piscavam, a estação tremia com o movimento do trem se afastando.

Por algum motivo, senti um impulso de passar por aquela pequena porta eletrônica, com metade da minha altura, que dava acesso aos trilhos. Chutei a tranca e engatinhei pela passagem, entrando num pequeno corredor de concreto, medindo dois metros de altura e vinte de comprimento. No fim, podia ver uma porta de madeira gasta, uma placa de aço como a indicação de algum gabinete.
Me aproximei. “Fevereiro”. Girei a maçaneta antiga de trinco e entrei.

Um amplo corredor, luzes frias piscando e altas estantes. Uma infinidade de pequenos livros coloridos, sem qualquer indicação nas lombadas, preenchiam cada prateleira. Ao longe, conseguia distinguir guinchos mecânicos ecoando, restos da existência de um vagão em algum trilho distante.
Andei, procurando uma saída no fim do corredor. Encontrei uma bifurcação.

Sempre estive vivendo no Agora. Numa era de velocidade crescente, a única presença do futuro é a pressão familiar por Carreira & Aposentadoria Privada. A velocidade dos trens, das motos e das pessoas pelas passarelas suspensas era a velocidade de meus batimentos cardíacos, do ar entrando pelo meu corpo, o próprio ritmo de minhas células morrendo e se separando em mitoses infinitas.

Ao fim de cada corredor, o início de um novo, exatamente igual. À esquerda e à direita, o fim de outras prateleiras, indicando outras bifurcações.
Escadas levavam a níveis superiores exatamente iguais aos anteriores. Infinitos livros coloridos, infinitas lombadas sem indicação, infinitas prateleiras preenchidas, infinitas estantes lotadas, infinitos andares.
Os livros, tão diferentes, com formatos nunca repetidos, sempre possuíam as mesmas folhas em branco. 
E ao longe, os mesmos guinchos metálicos. Um trem, sempre ouvido, nunca encontrado em nenhum nível, em nenhuma bifurcação, em nenhum corredor, em nenhum livro.

Afirmam que a culpa é dos celulares, rádios, televisões e internet. Algo a ver com uma ressonância permanente na Terra, que aumenta vertiginosamente. Nossa noção de tempo não é mais a mesma. As horas, os dias, os meses, os anos, tudo passa mais rápido. A vida se esvai mais rápido.
Num labirinto catalogado, onde volumes nunca iguais desfilam diante de meus olhos, todas as ressonâncias congelam, todas as mitoses congelam, todos os cheiros e cores e respirações congelam.
Encontrei a Paz.

Fotografia de Haicai
Do fundo da morte,observa o poeta, escolhesua pose eterna. 

Mais um baseado em Ferreira Gullar! Esse a partir do poema “Fotografia de Mallarmé”, do livro Ao Rés da Fala.

Fotografia de Haicai

Do fundo da morte,
observa o poeta, escolhe
sua pose eterna. 

Mais um baseado em Ferreira Gullar!
Esse a partir do poema “Fotografia de Mallarmé”, do livro Ao Rés da Fala.

(parêntesis aberto para admiração da beleza do símbolo do parêntesis)

O que você faria se tivesse que recontar uma história clássica do seu jeito? Como você faria?
Acho que li O Gato Preto, de Edgar Allan Poe, há pelo menos oito anos. Isso significa que a única coisa de que me lembro é o mote central: a culpa, o assassinato, o gato na parede. Todo o resto…bem, todo o resto são detalhes. Mas são o que torna a história única.Como dizem por aí, o demônio está nos detalhes.
Decidi então invocar meus próprios demônios, criar meus próprios detalhes. O resultado dessa experiência está aí…
No que penso quando penso em O Gato Preto 
Depois de seis meses, eu a matei. Não conseguia mais suportar seus gritos, seu choro, seu cheiro, sua gordura, seus pais, os vasos quebrados, as cenas, o inferno em nossa casa.
A farsa do casamento ficou clara nos primeiros três meses, quando eu começava a demonstrar sinais de distanciamento e agressividade. Fingi o melhor que pude, mas já não conseguia mais esconder o desprezo por minha esposa.
Logo ela se trancou no quarto, ela e seu maldito gato. Seus pais ameaçavam colocar um fim no casamento se eu não mudasse minhas atitudes e tratasse sua filha com “o amor que ela merecia”, e minha família descarregou todo o seu desespero sobre mim. Com a anulação do casamento antes de um ano, toda a fortuna de meus sogros estaria perdida, novamente inalcançável.
Portanto, o melhor que pude fazer foi matá-la. Destruir sua face gorda e feia com um taco de sinuca. Golpear repetidas vezes, fazer cessar os gritos, fazer cessar o choro, fazer cessar o cheiro, fazer cessar os telefonemas, fazer cessar toda a pressão. E dar a ela a sepultura que seu corpo delgado merecia – o porão.
Arrastei o cadáver da melhor forma que pude pelas escadas até o subsolo, e comecei o trabalho que me consumiu a madrugada inteira. Construí uma nova parede, um fundo falso, um vão onde escondi o corpo de minha mulher.
Nunca dormi tão bem. Mas a pressão nunca cessou.
Logo os telefonemas recomeçaram. Os policiais visitavam a casa, revistavam os quartos, me submetiam a horas de interrogatório. Meus sogros me ameaçavam, me agrediam, suplicavam por qualquer pista, qualquer filete de verdade sobre o paradeiro de sua filha. Eu mentia o melhor que podia para todos.
E logo passei a ouvir os malditos miados.
O gato de estimação, que eu não encontrava de jeito nenhum na casa, mas que continuava a ouvir todas as noites, em todos os cômodos, em todos os espaços, em todos os móveis. O maldito gato preto, que parecia invadir minhas horas acordado e meus sonhos durante a noite. Eu não suportava mais.
A manhã de sono angelical logo após o assassinato tornou-se uma lembrança dolorosa. Eu não conseguia mais dormir, não podia mais comer, não suportava mais viver naquela casa, e não tinha permissão para a abandonar. Os telefonemas continuavam. As visitas continuavam. Os interrogatórios continuavam.
Semanas. Meses em tortura. Eu passava de suspeito principal a inocente em horas, e voltava a ser suspeito. Minha própria família afogou-se em desgraça. Uma família centenária, importante, mas falida, e eu a estava oficialmente enterrando na vergonha.
E os miados do gato.
Lembro de ter resolvido quebrar a parede do porão no momento em que mais uma visita policial entrava em minha casa. Os oficiais foram atraídos pelos sons de minha risada e me encontraram lá embaixo. Apesar do desespero, uma parte de mim ainda estava consciente, e pude ver que eles também não conseguiam suportar o cheiro de minha esposa. Um dos policiais vomitou na minha frente.
Eu não me importava mais. Havia finalmente encontrado meu algoz. O maldito gato preto, enterrado vivo na parede junto com o cadáver, alimentando-se da barriga do corpo, miando na escuridão. E agora no meu colo, seus olhos mortos vidrados nos meus. Sua boca aberta e enrijecida, com as presas à mostra.
Mas em minha mente, eu ainda podia ouví-lo miar.

O que você faria se tivesse que recontar uma história clássica do seu jeito? Como você faria?

Acho que li O Gato Preto, de Edgar Allan Poe, há pelo menos oito anos. Isso significa que a única coisa de que me lembro é o mote central: a culpa, o assassinato, o gato na parede. Todo o resto…bem, todo o resto são detalhes. Mas são o que torna a história única.
Como dizem por aí, o demônio está nos detalhes.

Decidi então invocar meus próprios demônios, criar meus próprios detalhes. O resultado dessa experiência está aí…

No que penso quando penso em O Gato Preto 

Depois de seis meses, eu a matei. Não conseguia mais suportar seus gritos, seu choro, seu cheiro, sua gordura, seus pais, os vasos quebrados, as cenas, o inferno em nossa casa.

A farsa do casamento ficou clara nos primeiros três meses, quando eu começava a demonstrar sinais de distanciamento e agressividade. Fingi o melhor que pude, mas já não conseguia mais esconder o desprezo por minha esposa.

Logo ela se trancou no quarto, ela e seu maldito gato. Seus pais ameaçavam colocar um fim no casamento se eu não mudasse minhas atitudes e tratasse sua filha com “o amor que ela merecia”, e minha família descarregou todo o seu desespero sobre mim. Com a anulação do casamento antes de um ano, toda a fortuna de meus sogros estaria perdida, novamente inalcançável.

Portanto, o melhor que pude fazer foi matá-la. Destruir sua face gorda e feia com um taco de sinuca. Golpear repetidas vezes, fazer cessar os gritos, fazer cessar o choro, fazer cessar o cheiro, fazer cessar os telefonemas, fazer cessar toda a pressão. E dar a ela a sepultura que seu corpo delgado merecia – o porão.

Arrastei o cadáver da melhor forma que pude pelas escadas até o subsolo, e comecei o trabalho que me consumiu a madrugada inteira. Construí uma nova parede, um fundo falso, um vão onde escondi o corpo de minha mulher.

Nunca dormi tão bem. Mas a pressão nunca cessou.

Logo os telefonemas recomeçaram. Os policiais visitavam a casa, revistavam os quartos, me submetiam a horas de interrogatório. Meus sogros me ameaçavam, me agrediam, suplicavam por qualquer pista, qualquer filete de verdade sobre o paradeiro de sua filha. Eu mentia o melhor que podia para todos.

E logo passei a ouvir os malditos miados.

O gato de estimação, que eu não encontrava de jeito nenhum na casa, mas que continuava a ouvir todas as noites, em todos os cômodos, em todos os espaços, em todos os móveis. O maldito gato preto, que parecia invadir minhas horas acordado e meus sonhos durante a noite. Eu não suportava mais.

A manhã de sono angelical logo após o assassinato tornou-se uma lembrança dolorosa. Eu não conseguia mais dormir, não podia mais comer, não suportava mais viver naquela casa, e não tinha permissão para a abandonar. Os telefonemas continuavam. As visitas continuavam. Os interrogatórios continuavam.

Semanas. Meses em tortura. Eu passava de suspeito principal a inocente em horas, e voltava a ser suspeito. Minha própria família afogou-se em desgraça. Uma família centenária, importante, mas falida, e eu a estava oficialmente enterrando na vergonha.

E os miados do gato.

Lembro de ter resolvido quebrar a parede do porão no momento em que mais uma visita policial entrava em minha casa. Os oficiais foram atraídos pelos sons de minha risada e me encontraram lá embaixo. Apesar do desespero, uma parte de mim ainda estava consciente, e pude ver que eles também não conseguiam suportar o cheiro de minha esposa. Um dos policiais vomitou na minha frente.

Eu não me importava mais. Havia finalmente encontrado meu algoz. O maldito gato preto, enterrado vivo na parede junto com o cadáver, alimentando-se da barriga do corpo, miando na escuridão. E agora no meu colo, seus olhos mortos vidrados nos meus. Sua boca aberta e enrijecida, com as presas à mostra.

Mas em minha mente, eu ainda podia ouví-lo miar.

haicai aéreo

me diga o que quer
da vida que vive com pressa,
que tudo é vender


Esse foi uma sugestão da Marina (@marinamarina & http://marinamarina.tumblr.com/).

O poema original se chama vida aérea, e a autora é Angélica Freitas.
Você pode ler o original no tumblr dela, ou no seu livro Rilke Shake, publicado pela Cosac Naify, e que por sinal é bem bom. 

Parabéns pela dica, Marina. E parabéns pelo ótimo trabalho, Angélica Freitas. Lembro dessa coleção da Cosac de quando trabalhava na Livraria Cultura, mas nunca tinha folheado nenhum. Gostei do que li no Google Books.